domingo, 13 de fevereiro de 2011

CONVERSA COM O DESTINO

Quero que saibas
tu que te vanglorias,
desassombradamente,
que tens na mão os passos dos meus dias,
que vou andando
por vezes com a percepção
de viver em roleta russa,
deixando-me reagir
ao sabor da espontaneidade,
é obvio comandada por irrascibilidade,
resvalando por vezes
numa quase irracionalidade;
então, sei que sou injusto
ou talvez mesmo ingrato
p'ra quem comigo partilha a Vida,
apesar de nem sempre tão próximo
quanto eu preciso e desejaria!
........................
Mas tu, sim só tu,
reservaste-me tais vicissitudes
que eu vou compensando
com espasmos emotivos,
absurdamente só meus,
pois deles dependo inexoravelmente,
mas não tão frequentes
quanto eu desejaria!
.........................
Quero que saibas
que me sinto só, mesmo muito só,
temo que a vida se fragmente,
se esfarrape ao segundo;
em consciência vou contrapondo
pequenos laivos de felicidade
que encontro fugaz em tudo
o que eu olho e palpo,
rebuscando meu equilíbrio e
de novo mergulhando em meus silêncios.
Quero que saibas que
nesta brutal carapaça,
colete-de-forças que me esmaga,
assim vou vivendo,
até que um dia eu diga: basta!
.........................
Quero que saibas
que, tolerante, anseio de ti:
ou oportuno e vital conselho
p'ra que domine o constrangimento,
a ânsia e toda a incerteza,
ou então que me confesses
quais os caminhos da planície serena
e sua luz infinita e misericordiosa,
ou os da savana da escuridão perfeita!

(Antonio Luíz, 12-02-2011 )

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

RIO EM DESESPERO

Corre rio corre,
corre desenfreado,
a brutal enxurrada
descaracterizou-te,
embruteceu-te;
Levas vidas que afogas
diabolicamente,
porque tudo inundas
além do teu leito que te não basta!
......................
Fustígas-nos a alma
submissa e impotente,
enquanto olhamos a TV,
visualizando dramáticos confrontos
entre a morte e a vida
de seres vivos despojados,
trucidados
mas sobretudo inocentes!
.......................
Dás crédito à revolta da natureza,
à força incomensurável
dum Planeta bom
que nos acolheu,
mas hoje tristemente abandonado à sua sorte
por culpa de humanos indígnos,
tresloucados,
não merecedores da cohabitação.

Corre rio corre,
corre desesperado,
porque em teu feroz seio
também levas os gritos e lágrimas
dum Planeta que chora
inexoravelmente a sua desdita!...

(Antonio Luíz, 20-01-2011)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

TERMINAL DE DESILUSÃO

Afundo-me na tristeza,
sem as lágrimas convulsivas de outrora,
mas compulsivamente irrascível;
nada mais vale a pena,
não interessa sequer avaliar
porque se demoliu o amôr,
ou porque se esfumou a paixão!
...o fulgor do sol também se esvai,
e o vento ora sopra de rompante
outras vezes porém tão meigo é,
apaziguador, e tão refrescante!
.............................
Hoje, o dilúvio assassino
perturba a doce paz da foz
do meu rio de encantos!...

(António Luíz: Amarante, 13-01-2011 )

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

INSONIA DE AVÔ

Pelas cinco horas da madrugada
abordam-me as saudades de Ti,
culpado é o teu maravilhoso sorriso
e a paz com que me premeias
quando Te olho
e Te aconchego em meu colo!

A alegria de uma esfusiante vida
preenche-Te o presente,
electrisa todos os nossos sentidos,
e põe meus sentimentos à flor da pele,
contagiando meus espaços cerebrais
meio adormecidos,
tranquilizando toda a minha irreverência.

És o engodo há tanto esperado
para o anzol inerte das nossas vidas,
e assim voltou a jovialidade,
a enorme ternura que nos alenta,
e um eterno romance de amôr
que fervilha e tanto nos acalenta.

Vives afincadamente teus oito meses,
já gatinhas determinada
e com invulgar dinâmica e estética;
ràpidamente a marcha chegará
e virão algumas quedas sem rede
que demasiado sobressalto criarão!

Num futuro breve balbuciarás
as primeiras palavras e as mais queridas,
e um pouco mais tardiamente
a escola contigo partilhará
os primeiros encontros e desencontros,
e aprenderás por certo a louvar a Vida!

Por ora apenas Te vou observando
embebecido pela mais doce ternura,
petrificado por tamanho encanto:
- és a magia da natureza humana!

Vive como um alevim o Teu presente
no recôndito mar sempre contente;
breve o futuro se porá em teu caminho
e serás ave, mulher-guerreira, toda carinho!

( Poema dedicado a minha neta Sofia, 03-11-2010)

António Luíz, in "Poesia pragmática: Poemas de Vidas",
a publicar em 2010/2011 ).

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

FIM DA ILUSÃO

A morte acontecera e
na Eucaristia de corpo presente
faz-se o prelúdio
(com sons de violino pungente),
da entrega à terra do corpo e da alma
já sucumbidos, já sem ilusão.
Após 23 anos de sofrimento
em quase total alectuamento
pós acidente trombótico cerebral...
...acabára-se a ilusão!
...............................
Agora, a fatal dicotomia fragmentária:
- o corpo descerá à terra
e a alma voará para a vida eterna!
...............................
Talvez que para os eleitos
a ilusão não termine naquele momento
mas por certo longinquamente,
pois que a morte à vida pertence
e esta se comporta ad eternum
como doença assaz incurável
que um dia a própria morte vencerá.
Obviamente que a esta condenação
jamais alguém fugirá!
...............................
Aceitemos pois sem alternativa
que não há mais ilusões
além da fatídica morte.
Homenageemos capazmente a vida
- e assim se fez naquela noite -
se quisermos adiar
em total consciência
o fim da nossa vital ilusão!

( Antonio Luíz, Outubro-2010 ;
in "Poesia pragmática: poemas de vidas", a editar em 2010/2011)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

REPOUSO NO CAIS DO FREIXO

Gozo a esplanada do Freixo
onde sacio fome e sede,
mesmo ao lado da ponte guardiã;
nela passam objectos móveis
carregados de desejos
e também de ilusões...
..........................
Para lá da ponte
um sol portentoso
reflecte-se nas águas do rio,
criando foco de luz imensa:
- o Douro ilumina e aquece
este momento de fim de tarde
de uma terça feira,
após tarefa clínica em Resende,
curta mas assaz prazenteira;
Passa um barco
lotado de viajantes,
e dali a pouco
no frenesim do lanche retemperador,
apenas resta um ponto
lá longe, no fim do rio
que o sol ferindo os olhos
mal permite disfrutar!
.............................
Nesta atraente esplanada
a música de fundo continua
suave, mas bem batida,
contrariamente a meu coração
tranquilo, bradicárdico...
Observo um yate imóvel
um pouco à minha direita
mas que em nada me seduz;
...sobre moderna mesa
de tampo negro,
contrastando o branco das cadeiras,
esvazio paulatinamente
um copo de cerveja
a que hoje não soube resistir!

(Antonio Luíz, 07-09-2010 )

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CAOS



C A O S

( A propósito duma pintura de Raul Cardoso )




Em plataforma distal
deste intenso e sublime status,
existe hirto um vulto
estupefacto e passivo,
mantendo cordão umbilical
a tão possante mas aprazível
emaranhado de traços e cores;

Mas a harmonia cola-nos à tela....

Sigo linhas curvas e rectas,
espaços variegados com surdas vidas
aglomeradas, que gemem,
na lufa-lufa do ditame quotidiano,
espremidas na pressão dos desejos
e anseios em auto-desespero;
outros espaços não enxergo
mas sinto-os no âmago dos pincéis
e onde capto pensamentos velozes
em busca de libertação,
tentando a fuga às convulsões febris
de uma luta vital diária,
quantas vezes crispada e desumana,
que fatalmente nos distanciam
do humanismo e da glória,
mergulhando-nos
e sucumbindo-nos na auto-exortação
que tolamente nos empurra
para a vaidade e autodestruição!
Há quadrados triangulóides
e triângulos quase quadriformes,
mas também vejo formas losângicas
com cores de anjo, e também de luto!

Nesta amalgama de conflito e ilusão,
vejo barcos de rio, e talvez navios
a quererem in extremis cruzar
Louca e teimosamente
águas revoltas de outros mares.....

Fantasio aeronaves,
seguramente um dirigível
aguardando movimento proximal,
para fuga talvez tresloucada
a tão consciente imobilidade....
Não vislumbro traços de animais
ou sequer sinais divinos;

Quando o Caos assim nos domina,
temos ali as cores da esperança
e dum fluxo vivo e arrojado,
colorido de particulas de arco-íris
que se adivinha ou
se deseja ver nesta cativante tela
Que nos alimenta os sentidos
e nos afeiçoará às batalhas humanas,
em busca do equilíbrio emocional
mesmo que imperceptível
por detrás de tão pedagógico Caos!



( Antonio Luíz, in “ Poesia pragmática: poemas de Vidas” - a editar em 2010/11

escrito em 17-09-2010 )